Resposta direta: Contrato de gaveta é o contrato particular de compra de imóvel que não foi levado a registro. Ele vale entre comprador e vendedor, mas não transfere a propriedade: pela lei, dono é quem está na matrícula. Para regularizar, o caminho é a escritura definitiva com registro; se o vendedor não colaborar, a adjudicação compulsória; e, com posse longa, a usucapião.

Resumo

  • O contrato de gaveta vale entre as partes, mas não torna o comprador dono perante terceiros.
  • Enquanto o imóvel estiver no nome do vendedor, ele pode ser penhorado por dívidas dele.
  • Se o vendedor vender de novo, tende a prevalecer quem registrar primeiro.
  • Registrar o compromisso na matrícula já protege o comprador antes da escritura definitiva.
  • Contrato quitado permite adjudicação compulsória, inclusive em cartório.
  • Em imóvel financiado, a transferência depende da anuência do banco.

O que é, juridicamente, um contrato de gaveta

O nome é popular, não jurídico. Normalmente se trata de um compromisso ou promessa de compra e venda, ou de uma cessão de direitos, assinado por instrumento particular e guardado, sem ser levado ao Cartório de Registro de Imóveis.

No Brasil, a propriedade de imóveis só se transfere com o registro do título na matrícula. Enquanto isso não acontece, o comprador tem um direito contratual contra o vendedor, mas o dono, para todos os efeitos, continua sendo quem está registrado. A diferença entre contrato, escritura e registro está em escritura e registro de imóvel.

Os riscos de quem comprou

O que pode dar errado com o imóvel no nome do vendedor
SituaçãoConsequência para o comprador
Vendedor tem dívidasO imóvel pode ser penhorado em processos contra ele
Vendedor vende de novoQuem registrar primeiro tende a ficar com o imóvel
Vendedor faleceO imóvel pode ser incluído no inventário dele e partilhado
Vendedor se divorciaO imóvel pode entrar na partilha do casal
Vendedor someNão há quem assine a escritura definitiva
Comprador quer vender ou financiarBancos e compradores exigem o imóvel registrado

Há ainda o caso inverso: dívidas de IPTU e condomínio acompanham o imóvel e são cobradas de quem estiver na posse ou no registro, o que pode gerar cobranças cruzadas entre comprador e vendedor.

Como se proteger agora, antes de regularizar

  • Registrar o compromisso na matrícula. O compromisso de compra e venda registrado gera direito real à aquisição e torna o direito do comprador oponível a terceiros. Ainda não é a propriedade, mas já protege contra venda dupla e penhoras futuras.
  • Guardar toda a prova de pagamento: recibos, transferências, extratos.
  • Manter o IPTU e o condomínio em dia, com comprovantes, o que também reforça a posse.
  • Acompanhar a situação do vendedor: certidões de ações e protestos em nome dele.
Se o imóvel for penhorado numa ação contra o vendedor, o comprador pode se defender por embargos de terceiro, mesmo sem o contrato registrado, desde que comprove a posse decorrente da compra. É um entendimento antigo do Superior Tribunal de Justiça, mas exige agir rápido.

Caminho 1: escritura definitiva com o vendedor

Se o vendedor está vivo, localizável e disposto, é o caminho mais simples. As partes assinam a escritura pública de compra e venda no cartório de notas, o comprador recolhe o ITBI e registra a escritura na matrícula.

Antes, vale conferir as certidões do vendedor. Se houver ações que possam comprometer a venda, o advogado avalia como formalizar com segurança. Veja due diligence imobiliária e ITBI.

Caminho 2: adjudicação compulsória

Se o preço foi pago e o vendedor se recusa a assinar, desapareceu ou faleceu, o comprador pode pedir a adjudicação compulsória. Desde 2022, ela pode ser feita diretamente no Cartório de Registro de Imóveis, com advogado, quando não houver disputa. Com disputa, segue pela Justiça.

O direito à adjudicação não depende de o contrato estar registrado. Veja adjudicação compulsória quando o vendedor recusa e quando o vendedor faleceu.

Caminho 3: usucapião

Quando os documentos são frágeis, há uma cadeia longa de contratos ou ninguém da ponta original é localizável, a usucapião costuma ser o caminho. O contrato de gaveta, nesse caso, serve como justo título e ajuda a provar a posse.

O prazo pode ser de 5 a 15 anos, conforme a modalidade, e é possível somar a posse do vendedor. Veja o procedimento em usucapião extrajudicial: passo a passo no cartório.

O caso do imóvel financiado

Um tipo muito comum de contrato de gaveta envolve imóvel financiado: o comprador assume as parcelas do financiamento do vendedor sem que o banco participe. Esse arranjo traz riscos adicionais:

  • O banco continua considerando o vendedor como devedor e não reconhece o comprador.
  • Se as parcelas atrasarem, o imóvel pode ser retomado pelo banco.
  • O seguro habitacional cobre o mutuário original, e não o comprador.
  • A transferência regular do financiamento depende da anuência do banco, com análise de crédito do comprador.

Para contratos antigos do Sistema Financeiro da Habitação, há regras específicas que reconheceram algumas dessas cessões. Para os demais, o caminho costuma ser quitar o saldo ou negociar a transferência com o banco. Veja financiamento imobiliário e alienação fiduciária.

Se o problema está na herança

Quando o vendedor faleceu, os herdeiros dele podem incluir o imóvel no inventário por desconhecimento. O comprador deve se manifestar o quanto antes no inventário ou buscar a adjudicação. Do outro lado, se o falecido foi quem comprou por contrato de gaveta, os herdeiros inventariam os direitos sobre o imóvel, e não a propriedade. Veja inventário de imóvel sem escritura.

Quanto custa regularizar

Na escritura definitiva ou na adjudicação, o comprador paga o ITBI, os emolumentos e o registro. Na adjudicação extrajudicial, somam-se a ata notarial e o procedimento no Registro de Imóveis; na judicial, as custas. Na usucapião, entram o levantamento técnico e a ata notarial, mas, em regra, não há ITBI. Em todos os casos, os honorários do advogado. Veja quanto custa um advogado imobiliário.

Se você ainda vai comprar por contrato particular

Às vezes a escritura imediata não é possível, por exemplo porque o vendedor ainda está regularizando o imóvel. Se o negócio for feito por contrato particular, alguns cuidados reduzem muito o risco:

  1. Confira a matrícula atualizada e as certidões do vendedor antes de pagar.
  2. Faça o contrato com cláusula de irretratabilidade e prazo para a escritura.
  3. Reconheça as firmas e registre o compromisso na matrícula assim que possível.
  4. Pague por transferência bancária, nunca em dinheiro sem recibo.
  5. Retenha parte do preço até a assinatura da escritura definitiva.

Veja as cláusulas que não podem faltar em contrato de compra e venda de imóvel.

Por onde começar

Reúna o contrato, os comprovantes de pagamento, uma matrícula atualizada do imóvel e, se possível, os dados do vendedor. Com isso, é possível avaliar o risco atual e escolher o caminho de regularização.

O Moreira e Toledo regulariza imóveis em São José dos Campos e no Vale do Paraíba, da escritura à usucapião. Fale com nosso advogado imobiliário em São José dos Campos.

Perguntas frequentes

Contrato de gaveta tem validade?

Tem validade entre comprador e vendedor, mas não transfere a propriedade. Perante terceiros, dono é quem está na matrícula.

O imóvel de contrato de gaveta pode ser penhorado?

Pode, por dívidas do vendedor, porque continua no nome dele. O comprador pode se defender por embargos de terceiro, comprovando a posse.

Como regularizar um contrato de gaveta?

Pela escritura definitiva com o vendedor; se ele não colaborar, por adjudicação compulsória; e, com posse longa, por usucapião.

O vendedor morreu. E agora?

A obrigação de dar a escritura passa aos herdeiros. O comprador pode exigir a escritura no inventário ou pedir a adjudicação compulsória.

Posso transferir um financiamento por contrato de gaveta?

A transferência regular depende da anuência do banco. Sem ela, o banco continua tratando o vendedor como devedor, com riscos para o comprador.

Paola MoreiraOAB/SP 271.815 · Moreira e Toledo AdvogadosConteúdo informativo, revisado pelo advogado responsável. Não substitui a orientação sobre o caso concreto.